

José Hermano Saraiva (1919-2012) com Macho Castro Laboreiro


Cadela com Cio na Serra do Laboreiro em 2001


1920 – Jornal de Castro Laboreiro: "A Neve"


Tomaz de Figueiredo (1902–1970) foi um proeminente escritor, romancista e poeta português. Nascido em Braga, com poucos meses vai com seus pais residir em Arcos de Valdevez, para a Casa de Casares, construída pelo seu avô materno, e onde ainda viviam algumas das suas tias solteiras. A ida, tão infante, para os Arcos, justifica o sentimento que o leva a considerar essa vila como "terra minha pela memória e pelo amor", a sua verdadeira terra natal e que influenciou profundamente o ambiente e a atmosfera da sua vasta obra literária. Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra e de Lisboa. Foi Notário em várias terras. Serviu temporariamente como presidente da Câmara Municipal de Ponte da Barca entre 1939 e 1941. Várias vezes refere o Castro Laboreiro,
"O que me falta é tempo , tempo ... Mas lá iremos , se Deus quiser , que eu comparo - me a um cão lá dos meus lados , a um Castro Laboreiro , que , em ferrando os dentes , não torna a desferrá - los".

A Raça
O Cão de Castro Laboreiro é uma raça portuguesa reconhecida por todas as entidades nacionais e internacionais que tutelam a canicultura como um cão de guarda, de vigilância e proteção dos rebanhos.
Na Fédération Cynologique Internationale (FCI), pertence ao Grupo 2 - cães de tipo Pinscher e Schnauzer, Molossóides, Cães de Montanha e Boieiros, Suíços, Secção 2.2 - Molossóides, tipo Montanha.
- Rústico e vigoroso;
- Ativo, ágil e de grande beleza;
- Bem proporcionado e harmonioso;
- Cabeça seca, não muito volumosa, comprida e próxima do retilíneo;
- Orelhas caídas de inserção média;
- Sulco frontal quase nulo;
- Olhos oblíquos em forma de amêndoa;
- Céu da boca e mucosas pretas;
- Chanfro comprido e direito;
- Cauda em alfange, larga e grossa;
- Pés tendendo para o felino;
- Pelo curto, grosso e resistente;
- Cores lobeiras, raiadas;
- Ladrar característico.
Na 1.ª Exposição Canina Internacional realizada em Portugal - 1902 no Porto, O Cão de Castro Laboreiro participou e foi medalhado A presença do Castro Laboreiro nesta primeira grande montra da canicultura em Portugal evidencia o valor patrimonial e a relevância histórica desta raça autóctone, reconhecida e adquirida pela população portuguesa.
"Alberto Laurentino Barbedo, do Porto: um cão de Castro Laboreiro ".
Medalhados:
"Castro Laboreiro - Medalha de cobre a João Ferreira; menção honrosa, a D. Maria Francisca de Pinho".
Em 1908, realizou-se a 1ª Exposição Canina Internacional de Lisboa. O Cão de Castro Laboreiro foi novamente umas das poucas raças caninas portuguesas admitidas, na secção destinada a cães de guarda e de defesa. Saliente-se que um dos objetivos principais desta Exposição foi a fundação do Livro Genealógico dos Cães Peninsulares.
Em 1932 foi criado o Livro Português de Origens (LPO), registo para a identificação dos cães de raça pura existentes em Portugal. Foram feitos, então, os primeiros registos do Cão de Castro Laboreiro.
Em 14 de Agosto de 1933, é reconhecida à Secção de Canicultura a qualidade de Membro federado da Federation Cynologique Internationale (F.C.I.).
Os primeiros estalões oficiais de raças portuguesas de cães a serem elaborados e aprovados foram: Cão da Serra da Estrela em 1934, Cão de Castro Laboreiro em 1935.
Um dos ilustres fundadores do actual Clube Português de Canicultura, o médico veterinário, Prof. Manuel Fernandes Marques, deslocou-se a Castro Laboreiro, observa os exemplares existentes na freguesia e elabora o precioso documento, o Estalão do Cão de Castro Laboreiro. Foi um marco importante para o apuramento da raça, constituindo um garante da preservação das suas características originais. Diga-se que já em período anterior, ainda sem Estalão oficial, O Castro Laboreiro é reconhecido como raça de guarda pela Direção Geral da Agricultura, Instituições do Ensino Superior (Ciências Agrárias e Veterinária - Zootecnia), Exército Português, assim como pela população em geral.
Entre dezenas e dezenas de referências históricas ao Cão de Castro Laboreiro escolhemos algumas das mais conhecidas.
A literatura do século XIX dispensou alguns parágrafos ao Cão de Castro Laboreiro, por exemplo, Camilo Castelo Branco e Arnaldo Gama.
"…As coronhadas e as intimações ameaçadoras repetiam-se. Uma algazarra de Inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte. A Senhorinha, muito esganiçada, expectorava agudos ais na cozinha; não acertava a enfiar o saiote pelo direito. Os cães de Castro Laboreiro, muito ferozes, arremetiam às portas com a dentuça refilada. Porcos grunhiam dando bufidos espavoridos. A moça dos recados chamava a sua Mãe Santíssima e a alma da tia Jacinta do Reimundles, que estava inteira na igreja…"
[Camilo Castelo Castelo, A Brasileira de Prazins, 1879-1882]
Arnaldo Gama (1828–1869) foi um jornalista e escritor português da segunda geração do Romantismo. Formado em Direito em Coimbra, destacou-se sobretudo como autor de romances de ambiente histórico, focando-se na recuperação de lendas e episódios do passado. "O Satanás de Coura",
"um daqueles gigantescos e valentes cães de Castro Laboreiro"
Pinho Leal em 1874, Portugal Antigo e Moderno, ao descrever a região, faz menção aos mastins existentes, "criam-se aqui mastins d´uma corpulência e vigor extraordinários, pois qualquer d´elles mata um lobo. Criados fora d´aqui degeneram inteiramente".
Em 1920 o Jornal crastejo, A Neve publicava anúncios, com o titulo Cachorros, "Precisa-se comprar 3 cachorros da verdadeira raça de Castro Laboreiro. Quem os tiver dirija-se a esta redacção".
José Leite de Vasconcellos (1858 - 1941), arqueólogo, médico, etnógrafo, filólogo, museólogo, fundador do Museu Etnográfico Português (atual Museu Nacional de Arqueologia), também Professor do Curso Superior de Bibliotecário-Arquivista e Conservador da Biblioteca Nacional, percorreu Portugal de lés a lés, na sua Obra Monumental descreveu as raças portuguesas reconhecidas na época, o Cão de Castro Laboreiro consta como cão de guarda e pastoreio.

Manuel António Gomes, Padre Himalaya, nasceu em 1868, Cendufe, Arcos de Valdevez. É uma das figuras mais conhecidas e interessantes do Alto Minho no final do século dezanove. Faleceu em 1933, proposto para Presidente do Instituto Histórico do Minho. Além de sacerdote, foi inventor, cientista e visionário. Em 1904 obteve um grande prémio na América, Exposição Mundial de St. Louis com o Pyrheliophero. No ano de 1927 viajou para a Argentina continuando empenhado nas suas observações e investigações. Em carta enviada para o seu irmão, maio de 1929:
"Dentro destes terrenos há muitas espécies de animais selvagens. O Félix Puma, (leoncito), muito parecido ao Leão, mas mais pequeno, como um cão grande de Castro Laboreiro, é o principal bicho bravo."

Francisco Teixeira de Queiroz, nasceu em Arcos de Valdevez a 3 de maio de 1848 e faleceu em Sintra a 22 de julho de 1919. Foi retratado por Columbano Bordalo Pinheiro. Médico, colaborador em vários jornais, deputado, vereador republicano e Ministro dos Negócios Estrangeiros. Presidente da Academia das Ciências de Lisboa, mestre do conto e do romance, enalteceu as qualidade do Castro Laboreiro em vários contos.
"(…) É então que os pastores o escorraçam accirrando os seus valentes cães de Crasto, que destemidamente ó abraçam em lucta tenaz".
Perguntas mais comuns sobre o Castro Laboreiro
1. Funcionalidades do Cão de Castro Laboreiro?
A sua seleção foi orientada para o desempenho de funções utilitárias específicas, particularmente em ambiente montanhoso e de elevada exigência climática.
Guarda de animais domésticos
A principal função tradicional desta raça consiste na proteção de animais: ovelhas, cabras e vacas contra predadores, especialmente o lobo-ibérico. Dotado de forte instinto territorial, elevada coragem e capacidade de atuação autónoma, o Cão de Castro Laboreiro desempenha um papel fundamental na mitigação de perdas pecuárias tão importantes para a economia caseira.
Guarda de propriedades
Paralelamente à sua função pastoril, a raça é amplamente reconhecida pelas suas aptidões como cão de guarda de propriedades. A sua vigilância permanente, aliada a uma atitude naturalmente reservada perante indivíduos estranhos, torna-o particularmente eficaz na proteção de habitações, explorações agrícolas e outros espaços rurais.
Cão de família
Revela uma capacidade natural para estabelecer relações de proximidade com os membros do agregado familiar. Quando devidamente socializado e educado, demonstra lealdade, equilíbrio comportamental e forte vínculo aos seus proprietários; é incorruptível.
2. Como adquirir um Castro Laboreiro?
Se pretende adquirir um Cão de Castro Laboreiro, recomenda-se que o faça através de criadores responsáveis e reconhecidos pelas entidades oficiais da raça: Clube Português de Canicultura, Associação e Clube de Raça.
A aquisição deve privilegiar não apenas a pureza genética, mas também a saúde, o temperamento e a funcionalidade do animal.
Antes da aquisição, deve confirmar que o animal possui:
- Registo no Livro de Origens Português (LOP);
- Identificação eletrónica (microchip);
- Boletim sanitário atualizado;
- Vacinação e desparasitação adequadas;
- Informação sobre a ascendência dos progenitores.
É aconselhável solicitar informação sobre a avaliação morfológica e comportamental dos reprodutores, bem como o seu histórico em exposições, concursos da raça ou programas de valorização genética.
Visitar o criador
Sempre que possível, visite as instalações para observar as condições de criação, o estado sanitário dos animais e o seu comportamento. Esta visita permite também avaliar o grau de socialização dos cachorros.
3. Cuidados a ter com o Castro Laboreiro
É uma raça de grande rusticidade e não requer cuidados específicos para garantir o seu bem-estar físico e comportamental.
Alimentação:
Uma alimentação equilibrada e adequada à idade, peso e nível de atividade do animal é fundamental para assegurar um crescimento saudável e a manutenção da sua condição física.
Exercício Físico
Trata-se de uma raça ativa que necessita de exercício. Caminhadas diárias, atividades ao ar livre e acesso a espaços amplos contribuem para prevenir problemas comportamentais associados ao sedentarismo, como ansiedade ou comportamentos destrutivos.
Socialização e Educação
A socialização precoce é essencial para promover um comportamento equilibrado perante pessoas, outros animais e diferentes ambientes. Devido ao seu forte instinto de proteção e independência, o treino deve ser consistente, baseado em reforço positivo e iniciado desde tenra idade.
Saúde Preventiva
É importante cumprir o plano de vacinação e desparasitação recomendado pelo médico veterinário, bem como realizar consultas periódicas de acompanhamento. A monitorização do estado de saúde permite a deteção precoce de eventuais problemas e contribui para uma maior longevidade do animal.
Higiene e Cuidados com o Pelo
O pelo do Cão de Castro Laboreiro é relativamente fácil de manter. Escovagens regulares ajudam a remover pelos mortos, sujidade e a manter a pele saudável. Os banhos devem ser realizados apenas quando necessário, de forma a preservar a proteção natural da pele e do pelo.
Espaço e Ambiente
Embora possa adaptar-se a diferentes contextos, esta raça beneficia particularmente de ambientes com espaço exterior. O seu temperamento e as suas características funcionais tornam-no mais adequado a zonas rurais ou habitações com quintal devidamente vedado, onde possa exercer os seus comportamentos naturais de vigilância e guarda.
Bem-Estar Emocional
Apesar da sua independência, o Cão de Castro Laboreiro desenvolve fortes laços com a família. A interação regular e a participação em atividades familiares são importantes para o seu equilíbrio emocional e qualidade de vida.
Conclusão:
Os cuidados prestados ao Cão de Castro Laboreiro devem atender às suas características específicas enquanto raça de guarda e trabalho. Uma alimentação adequada, exercício regular, acompanhamento veterinário, socialização precoce e um ambiente compatível com as suas necessidades constituem fatores essenciais para garantir o seu desenvolvimento saudável e o seu bem-estar ao longo da vida. Além de um companheiro leal, trata-se de uma raça que representa um importante legado cultural e zootécnico português, cuja preservação depende também de práticas responsáveis de criação e manutenção.
